quarta-feira, 22 de maio de 2013

PROCURA AJUDA!

Tu acordas de manhã e a primeira coisa que te vêm à cabeça são pensamentos negativos. A primeira coisa que pensas é: "Meu Deus... Mais um dia pela frente... Um dia repleto de sofrimento, de angústias, de dor... Só estou à espera que a morte bata à minha porta para aliviar a minha dor..."
Depois, pensas em pesar-te. Olhas para a balança, com medo. Os números tornam-se amigos e inimigos ao mesmo tempo e, com o medo de subires à balança e teres uma decepção com aquele maldito número, preferes nem pesar-te. Sentes-te um monstro quando o fazes.
Depois de uma noite mal dormida, vais urgentemente fazer um café fortíssimo, na esperança de conseguires "despertar", assim como ter alguma força, porque há dias em que tu nem força tens para te aguentares em pé. As tonturas, fraquezas, cansaço e depressão são constantes. O teu olhar nunca transmitirá segurança ou paz.
Depois -> escola. Passas o dia desconcentrado nas aulas, a contar calorias, a fazer o teu plano alimentar e de exercícios. Porque tu não descansas enquanto não souberes com exactidão o que vais comer, e que exercícios vais fazer.
Porque a comida gira à tua volta, e a única coisa em que tu pensas é sobre ela... e em MORRER.
Porque com a vida que tu levas, não te importas se te matares. Se antes vias um caixão e ficavas apavorado, hoje em dia olhas para um caixão ou para uma sepultura e só pensas: "O que mais queria era estar ali."
Tornas-te uma pessoa depressiva, fria, distante de tudo e todos e não te importas com o facto de, se morreres, causares sofrimento à tua família que cá fica, porque a única coisa em que tu pensas é em aliviar o sofrimento que a tua alma carrega.
À medida que o tempo passa, as tuas notas vão descendo sempre. Porque já nada te importa. Nem mesmo a escola. A única coisa que te importa agora é o teu mundo interior.

Tu adoras falar disto com outras pessoas e falas na tua doença aos outros com uma naturalidade surpreendente, porque é um fardo demasiadamente pesado para se carregar sozinho, é uma cruz demasiadamente pesada para a tua alma. E por isso é que tu adoras falar disto às outras pessoas, porque ficas sempre na esperança de receber uma palavra amiga, uma palavra de AJUDA. Porque tu DESESPERAS por ajuda.
E sentes que a única coisa que te ajudaria neste momento seria morrer.
Não vês a hora de chegares a casa, porque a fraqueza é forte.
Chegas a casa. Tens uma compulsão. Vomitas até às tripas, choras, cortas-te, sentes-te extremamente depressivo e frustrado. E tomas uma mão cheia de laxantes e diuréticos.
Depois, vens para o pc, falar com pessoas que passem pelo mesmo que tu, porque, mais uma vez, queres ter uma palavra amiga. Não que te influencie a afundares-te ainda mais nesta merda de doença, mas apenas uma palavra que te console.
E depois, vais dormir. Porque sentes que não há nada melhor que isso: Dormir e consequentemente esquecer a vida miserável que levas, nem que sejam apenas por algumas horas... Horas essas que, durante o sono, passam a correr, e que consequentemente signifiquem que são menos algumas (horas) até ao dia da minha (tão ansiosamente esperada) morte. Oh, como preciso disso...
E na cama, só pensas: "Meu Deus, obrigado por mais um dia se ter passado. Menos um dia até ao fim da minha tão ansiosamente esperada morte."
Conheço pessoas que têm TA há 15, 20 ANOS. Sim, ANOS. Isso é quase uma vida. Imagina o que é veres a tua vida consumida por uma doença durante 20 anos? Porque à medida que o tempo passa, a dor, o sofrimento, e a angústia vão aumentando cada vez mais. E a dor que tu sentes noite após noite, torna-se numa doença. Não sentes nada mais do que a dor por si mesma.
Pensas que vais conseguir parar quando chegares aos 59/60 kgs, mas eu sei que não vais. EU SEI. Porque o mesmo se passou exactamente comigo, assim como se passa com toda a gente que começa a desenvolver um TA.
Digo isto porque, como emagrecemos muito depressa, não damos tempo ao cérebro de acompanhar esse emagrecimento nem de se habituar a essa mudança, e consequentemente ele vai distorcê-la, fazendo com que nos vejamos iguais ou ainda mais gordos. Ora, e por isso é que nós, pessoas com TA, somos sempre do género: Quero chegar aos 60...; Hm, não, só até aos 55 e depois paro; Não, eu quero menos, menos! 45 será uma boa meta para mim; Hm, ainda não estou bem. 42. Depois 39. 36. 33. Até que perdes a noção da realidade e acabas com 20 e poucos kgs, numa cama de hospital, sem forças nem para te levantares, a vomitar sangue, com soro na veia, entre a vida e a morte...

E agora pergunto-te eu: É isto que tu queres?
Queres ver a tua vida consumida por esta merda que te destrói dia após dia? Nem precisas de responder, porque eu já sei que a resposta é NÃO. Não, não queres.
Procura ajuda o mais rápido possível. Quanto mais a doença se cronifica, mais difícil é de curar. E eu tenho a certeza que tu te queres dar uma vida e um futuro melhor. E isto não é vida para ninguém... Acredita...

E não me digas que sabes no que te estás a meter, porque aí eu pergunto-te... : Será??



Texto escrito por Francisco Lameira.
Link do post original: http://ana-mia2011.blogspot.com.br/2012/11/procura-ajuda.html

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3 comentários:

  1. Francisco Lameira
    é um miúdo incrível.

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  2. Nossa, tão triste, tão bonito, tão verdade, tão sofrido, tão pouco pra descrever o que realmente passam as pessoas que tem TA

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